Em Nome da Mãe - Coerente, versátil e necessário
- Caio César

- 29 de mai.
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de jun.
Em nome da mãe se apresenta como um espetáculo coerente, versátil e, sobretudo, necessário. A obra acompanha a jornada de Maria de Nazaré durante a gestação a partir de uma perspectiva feminina e humanizada, deslocando o foco da figura sagrada para a experiência concreta de uma jovem pobre e grávida inserida em uma sociedade patriarcal.

Ainda que traga uma personagem central do imaginário religioso, o espetáculo evita cair em uma abordagem ritualística ou devocional. A construção dramatúrgica, aliada às escolhas de cenografia e indumentária, produz um distanciamento crítico que enriquece a obra e amplia seu alcance, permitindo uma aproximação mais direta com o público contemporâneo.
A atriz e idealizadora Suzana Nascimento demonstra sólido domínio cênico ao sustentar sozinha a narrativa. Sua interpretação se constrói a partir de constantes alternâncias entre personagens, recurso que, em um primeiro momento, pode gerar certa confusão, especialmente pela rapidez das transições e pela necessidade de familiarização com os nomes e funções de cada figura em cena. No entanto, à medida que o espetáculo avança, essa dinâmica se organiza e passa a trabalhar como um elemento potente da encenação, contribuindo para a fluidez narrativa.
Outro destaque é o trabalho vocal da atriz, que evidencia preparo técnico e sensibilidade interpretativa. Nos momentos finais, marcados por vocalizações intensas e gritos, a cena atinge um nível de visceralidade que impacta diretamente o espectador, criando um estado de forte empatia com a personagem.
No campo da linguagem, o espetáculo tensiona convenções do teatro dramático ao incorporar uma relação direta e ativa com a plateia. O “pacto” estabelecido no início, ao explicitar que não se trata de uma peça religiosa, funciona como um dispositivo eficaz de mediação, reposicionando o espectador e abrindo espaço para uma recepção mais crítica e menos condicionada por expectativas prévias.
A cenografia se destaca pela inteligência na utilização dos objetos cênicos. Cada elemento é explorado de forma funcional e simbólica, evitando excessos e contribuindo para a construção de sentidos. A escolha de utilizar cuias de diferentes tamanhos para representar a evolução da gestação é particularmente potente, sintetizando visualmente o desenvolvimento da narrativa com simplicidade e inventividade.
A iluminação, combinada ao uso de fumaça, cria uma atmosfera envolvente que amplia a imersão do público. Em alguns momentos, a fumaça ultrapassa o limite do palco e invade a plateia, seja por características do espaço ou por decisão estética, reforçando a sensação de compartilhamento daquele ambiente e aproximando espectadores e cena.
Por outro lado, o uso de projeções em determinados trechos soa menos necessário diante da força dos demais elementos cênicos. Em um espetáculo que já se sustenta com tanta eficácia na presença da atriz e na materialidade dos objetos, esse recurso acaba parecendo pouco integrado ao conjunto.
De modo geral, Em nome da mãe se consolida como uma obra consistente e bem resolvida. Sua força está justamente na articulação entre atuação, direção, dramaturgia e escolhas cênicas, que, juntas, constroem uma experiência sensível, crítica e original. Trata-se de um espetáculo que não apenas revisita uma narrativa conhecida, mas a reinscreve sob novas perspectivas, reafirmando a potência do teatro como espaço de reinterpretação, formação de senso crítico e disputa de sentidos.
/texto por Caio César


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