O equilíbrio difícil em Uma Mulher em Fuga
- Bruno Velloso

- 29 de mai.
- 3 min de leitura
Logo no início de Uma Mulher em Fuga, duas figuras ocupam o palco sem de fato se encontrar. De um lado, o filho voltado para a plateia; do outro, a mãe, orientada em outra direção. Eles falam, dialogam, compartilham uma história – mas não se olham em cena. Essa disposição produz uma sensação estranha: a conversa acontece, mas não como transparência imediata. Há algo de frontal e levemente deslocado nos corpos e nas falas, como se a peça mantivesse visível o próprio ato de narrar aquela história. Ao incorporar procedimentos do teatro épico, a peça sustenta uma dimensão constante de relato, memória e construção.

Com dramaturgia de Pedro Kosovski, adaptada dos livros Lutas e metamorfoses de uma mulher e Monique se liberta de Édouard Louis, o espetáculo acompanha diferentes momentos da trajetória de Monique. Da separação do terceiro marido até a conquista de sua própria casa, a peça retrata, sobretudo, uma pessoa que luta para ser mulher. A direção de Inez Viana, junto à cenografia de Dina Salem Levy e à iluminação de Alice Cruz, organiza no palco uma dinâmica de aproximação e distância entre mãe e filho. A grande mesa, que domina o cenário, intensifica essa relação: em certos momentos, separa os corpos como um abismo; em outros, torna-se espaço de confronto e de aproximação. A luz também participa dessa variação, ora expondo a caixa cênica nua e seus artifícios; ora recortando em situações mais fechadas e íntimas. Aos poucos, o próprio espaço parece acompanhar as metamorfoses de Monique: a estrutura se abre, novos elementos surgem, e a personagem ocupa a cena de outra maneira.
Assim, a peça se aproxima do teatro épico não como uma simples escolha de estilo, mas como modo de encenar o próprio gesto de escrita nos livros de Édouard Louis. Há um narrador em cena, falas dirigidas à plateia e uma encenação que não esconde inteiramente seus artifícios. Esses procedimentos impedem que a história se feche num drama autônomo. A relação entre mãe e filho não aparece como algo imediato: ela surge atravessada pela memória, narração e tentativa de compreensão. O filho fala da mãe, mas também do próprio esforço de escrever sobre ela. A encenação encontra, assim, uma forma teatral capaz de manter visível a distância entre aquilo que foi vivido e o esforço posterior de narrar e compreender essa relação.
Alguns dos momentos mais marcantes do espetáculo surgem justamente a partir da música. Em cena, uma canção do Scorpions retorna como um leitmotiv em diferentes momentos da trajetória da personagem, como uma insistente vontade de felicidade. Malu Galli constrói uma Monique intensa, carregada de explosões emocionais, exaustão e desejo. Há na personagem algo de quebrado, mas também uma energia insistente, uma vontade de existir e transformar a própria vida. Thiago Martelli opera em outra chave. Sua atuação é mais contida e analítica, marcada pela posição de filho-autor que narra aquela relação. O equilíbrio entre os dois impede que a história se feche no sofrimento ou na elaboração intelectual.
O que torna Uma Mulher em Fuga tão forte é justamente esse equilíbrio difícil. A peça explicita seus artifícios, mantém aberta a dimensão de relato e construção da memória, mas nunca se torna fria ou hermética. Pelo contrário: a direção de Inez Viana encontra uma modulação emocional extremamente precisa, capaz de transformar distância, lembrança e elaboração em experiência sensível. Há momentos em que a respiração da plateia parece suspensa.
Mais do que reconstruir a história de Monique, os livros de Édouard Louis acompanham a transformação do olhar do filho sobre a mãe. Ao revisitar essa relação, a escrita retrata não apenas a violência e pobreza que marcaram sua vida, mas também a dificuldade inicial do próprio filho em enxergá-la para além da vergonha e do desgaste cotidiano. A peça preserva essa dimensão sem transformar Monique numa figura passiva. É ela quem foge, rompe com relações violentas, reorganiza a própria vida e encontra outra possibilidade de existência. O filho escreve sobre esse movimento tentando compreender a força e a dignidade que antes não conseguia perceber inteiramente.
Ao transformar uma experiência íntima em linguagem – literatura e depois teatro -, os livros e a peça ampliam aquilo que pode ser visto, narrado e compartilhado. A história de Monique nunca deixa de ser singular, mas encontra algo das relações humanas que ultrapassa o âmbito estritamente pessoal. É dessa relação entre memória, elaboração e afeto que surge a força extremamente tocante do espetáculo.
/texto por Bruno Velloso


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